Colección: Revista Interamericana de Bibliografía (RIB)
Número: 1-4
Título: 1997
Sección: Artículos / Articles
São Paulo: a Capital do capital
Nos anos 20, o café já não influenciava a vida da Capital da mesma forma como
o fez até a Primeira Guerra Mundial. Uma nova dinâmica vinda de outras atividades,
principalmente da consolidação da indústria, tomou conta da movimentação urbana.
Se antes a cena econômica e política era dominada pelas famílias Prado, Penteado,
Pacheco Chaves, os anos 20 serão marcados por nomes como os de Matarazzo,
Crespi, Siciliano, Scarpa. Disso não resultou antagonismos - uma possível
oposição de interesses agrários-cafeeiros e interesses urbanos-industriais,
como muitos quiseram caracterizar. O grande capital aplicado na cultura cafeeira
não era exclusivamente agrário; seus interesses se espraiavam por várias funções
urbanas, bancos, indústrias, comércios e estradas de ferro.9
Mas então, o que os anos 20 trazem de novo? A diferença desses anos em relação
ao período 1880-1914 reside no fato de que a cidade passa a se mover através
de atividades não estritamente ligadas ao grande comércio de exportação do
café. Aos capitalistas ligados à lavoura cafeeira, à indústria, aos bancos
- a chamada burguesia cafeeira, junta-se o capitalista industrial de
origem estrangeira, cujos negócios estão diretamente ligados à expansão do
mercado interno. Esse capitalista não nasceu na década de 20; muitos estabeleceram
seus negócios por volta de 1880/1890, mas a guerra e o período pós-guerra
foram os momentos de consolidação, expansão e diversificação dos seus negócios.
Por isso, na década de 20, a cidade dos fazendeiros transformou-se na metrópole
do capital industrial.
A complexidade do crescimento urbano da Capital originava-se da maior integração
e diversificação das atividades produtivas. Esse fato pode ser evidenciado,
de forma aproximada, no aumento do número de estabelecimentos inscritos nos
livros de lançamento de impostos sobre o capital realizado entre 1914 e 1929.10
Durante o período que se estende da eclosão do conflito bélico à crise de
1929, o número de estabelecimentos sujeitos ao pagamento do impostos cresceu
304,22%, ou seja, passou de 7.785 para 23.958 estabelecimentos. Dos oito setores
estudados (indústria extrativa, indústria de transformação, comércio de mercadorias,
mercado de crédito, comércio de imóveis e valores imobiliários, atividades
auxiliares do comércio, transporte e comunicações e serviços), os setores
que apresentaram maior crescimento foram os ligados à expansão urbana da Capital
- transporte e comunicações, mercado de crédito, indústria extrativa e
comércio de imóveis e valores imobiliários. Em seguida, vinha o setor
de serviços pessoais, cujo número de estabelecimentos, em 1929,
era quase cinco vezes maior ao registrado em 1914. E, por fim, as atividades
auxiliares do comércio, a indústria de transformação e o comércio de mercadorias.
Com exceção da indústria de transformação que teve um crescimento de
283% e do comércio de mercadorias, cujo crescimento foi de 238%, os
demais setores apresentaram crescimento acima do conjunto total das atividades
produtivas que foi da ordem de 304%.
Na Capital, há um predomínio numérico de estabelecimentos dedicados ao comércio
de mercadorias, que, em 1914, totalizava 4.905 estabelecimentos e, em
1929, 11.682. Os estabelecimentos prestadores de serviços vinham em
segundo lugar, em termos numéricos, com 157 estabelecimentos em 1914, e com
7.477, em 1929. A indústria de transformação ocupava o terceiro lugar,
segundo o número de estabelecimentos, com 3.323 estabelecimentos, em 1929,
contra os 1.175, em 1914.
Em 1914, esses três setores (comércio de mercadorias, serviços e indústria
de transformação) representavam cerca de 97,3% do total de estabelecimentos
na Capital. Quinze anos depois, eles representam 93,7%, uma queda que indicava,
tenuamente, a diversificação das atividades produtivas e um certo avanço da
divisão do trabalho com a presença de novos setores.
A mera descrição do predomínio numérico dos estabelecimentos por setores não
permite, entretanto, visualizar a integração e o sentido do crescimento que
tem lugar na cidade de São Paulo.
A observação a um nível maior de desagregação setorial marca, com maior
clareza, o sentido da expansão das atividades produtivas da Capital. A desagregação
dos setores em seus gêneros e ramos nos permite qualificar as mudanças ocorridas
na esfera das atividades econômicas.
Chama a atenção, desde logo, a expansão das atividades industriais e
comerciais ligadas à construção física da cidade, à expansão dos prédios,
ao calçamento de ruas e à urbanização de bairros. O ritmo da construção civil
cresceu. Entre 1900 e 1910, o número de prédios construídos era de 1.000,
média anual; entre 1910 e 1929, a média anual de construção de prédios passou
para quase 3.000. Em 1910, a Capital contava com 32.914 prédios e, em 1929,
com 60.000.11
O aceleramento do ritmo de construções refletiu-se no aumento da demanda por
produtos empregados na construção civil, e as indústrias ligadas à produção
desses produtos responderam favoravelmente: no período de 1914 a 1929, a indústria
extrativa, formada pelos ramos de extração de pedras para a construção,
extração de areia e pedregulho e extração de caulim, multiplicou o número
de estabelecimentos por 12, de modo a atender às necessidades do crescimento
das construções.
A indústria de minerais não metálicos concentrada nos anos em questão
quase que exclusivamente na fabricação de telhas e tijolos, além de expandir
esses ramos, diversificou-se com a instalação de fábricas de cimento e de
fábricas de material sanitário.
A indústria metalúrgica cresceu quatro vezes para atender ao aumento
da demanda das empresas construtoras, produzindo materiais de encanamento,
pregos, grampos, artigos de serralharia, etc. O crescimento desse ramo da
indústria associa-se com o processo de verticalização da cidade. Na década
dos anos 20, na construção de prédios com mais de 4 pavimentos o cimento armado
era substituído pelo concreto armado. Os novos materiais de maior resistência,
empregados, na construção da cidade impulsionavam os ramos industriais.
Na mecânica, a diversificação ficou por conta da instalação de uma
fábrica montadora de elevadores. Previa-se o aumento do número de prédios
com mais de quatro andares ou pisos, a cidade verticalizava seu crescimento.
O Edifício Martinelli era um exemplo, projetado, em 1924, com 12 andares acabou
com 30, em 1929, para não perder a disputa de maior prédio da América Latina.
Até 1914, a pequena difusão do consumo de energia elétrica percebia-se
pela inexistência de estabelecimentos produtores de material elétrico. As
vias públicas eram iluminadas por combustores a gás e existiam apenas 846
focos elétricos.12
A Avenida Paulista recebeu iluminação elétrica em 1916. Um ano antes, o Trianon
exibia seus postes com iluminação elétrica. Em 1920, a Capital dispunha de
2.153 focos elétricos e, a partir desse ano, a iluminação elétrica difundiu-se
pelo conjunto da cidade. Os anos 20 foram o canto do cisne para os
combustores a gás - enquanto se apagavam, a eletricidade tomava conta das
ruas.
A indústria de material elétrico (antes inexistente), em 1929, era
representada por oito estabelecimentos, sendo dois produtores de fios elétricos.
Ao crescimento dessas indústrias ligadas à expansão física da cidade junta-se
o crescimento do comércio de materiais para construção, material elétrico
e ferragens, mostrando a integração entre os setores da atividade econômica.
As lojas de materiais para construção, até 1914, não passavam de 20; quinze
anos depois, elas perfaziam um total de 178 espalhadas pela cidade. Algumas
dessas lojas mostravam um certo grau de especialização, comercializando artigos
específicos, como materiais elétricos e materiais de iluminação.
A extensão do espaço urbano e a intensa incorporação de áreas semi-rurais,
como chácaras e sítios, ampliavam as distâncias. Se antes, o perímetro urbano
podia ser percorrido a pé, com o tempo, cresceram as dificuldades de
se realizar tal façanha. Os meios de transportes tiveram seu
uso difundido. Um número crescente de veículos de tração animal, bondes
elétricos e veículos motorizados cruzavam a cidade. Crescia o número de estabelecimentos
fabricantes de carroças e carruagens, e, a partir dos anos 20, houve uma diversificação
nesse gênero de indústria, que incluiu a produção de carrocerias para veículos
automotores. Em 1929, havia quatro estabelecimentos fabricantes de carrocerias
de ônibus sobre chassis importados.
Ainda em 1920, 51% dos veículos que trafegavam na cidade eram de tração animal
e apenas 20% eram veículos com motores. As carroças eram utilizadas nos serviços
de entrega de pão, de leite, de lenha, de hortaliças e de carne.13
A melhoria dos transportes à tração animal veio com o uso cada vez maior de
rodas de borracha. Entre 1914 e 1929, instalaram-se as primeiras fábricas
de recondicionamento de pneumáticos.
Ao lado das fábricas de recondicionamento de pneumáticos, surgiram, na década
de 20, as lojas de venda de artefatos de borracha. Em 1929, existiam na Capital
cerca de 17 casas comerciais de pneumáticos e câmaras de ar. Dentre elas sobressaiam-se
as grandes firmas estrangeiras, tais como a Goodrick Rubber Cy of Brazil,
Firestone and Rubber Cy, The Goodyear Tire and Rubber Cy, United States Rubber
Cy, S.A. Michelin e a General Tire & Rubber Co.14
A entrada crescente de firmas comerciais de pneumáticos e câmaras de ar combinou-se
com a instalação de casas de venda de veículos, peças e acessórios. Até 1914,
no comércio de peças e acessórios para veículos, dominavam as lojas
de bicicletas, acessórios e peças. Nos anos 20, o ramo de vendas de auto-peças,
peças para veículos a motores como acumuladores e coxins, passou a ser responsável
por 84% do total de estabelecimentos do gênero.
As ruas da cidade ganhavam os automóveis, a velocidade e, como não poderia
deixar de ocorrer, as bombas de combustíveis e lubrificantes. Na Capital,
em 1914, havia uma única bomba de combustível; em quinze anos, instalaram-se
557 bombas de gasolina. Dentre elas, despontavam as distribuidoras estrangeiras,
como a Standart Oil Co of Brazil, a Atlantic Refining Co, a Anglo Mexican
Petroleun Co e a Texaco.15
Durante os anos 20, houve uma maior internalização da produção industrial,
o que levou a uma maior integração entre os gêneros da indústria. A
mecânica, a química, o papel e o papelão foram os gêneros da indústria que
tiveram o número de estabelecimentos multiplicado por seis. Na indústria mecânica,
o número de fabricantes de máquinas de beneficiamento de café e de outros
produtos agrícolas e de máquinas industriais ampliou-se. Um exemplo dessa
internalização está na instalação primeira fábrica produtora de teares, a
Indústria de Máquinas Ribeiro.
A indústria de papel e papelão apresentou uma importante modificação na sua
composição. Na década de 20, três fábricas de papel e papelão foram
instaladas; antes disso, só funcionavam fábricas de sacos de papel e caixas
de papelão, a partir da importação de matéria-prima.
Outra importante substituição de importação da matéria-prima foi a que resultou
da diversificação da indústria química. Até 1914, esse gênero da indústria
produzia graxa para calçados, adubos, água sanitária e formicida. A partir
das dificuldades de importar, durante a guerra, houve um impulso para a instalação
de unidades produtoras de insumos e de produtos utilizados por outras indústria,
e a indústria química começou a produzir anilinas, produtos de limpeza industrial,
tintas e vernizes, lactite, etc.
As relações em cadeia entre os gêneros industriais consolidavam-se, permitindo
a formação de um verdadeiro parque industrial diversificado e integrado.
Na indústria farmacêutica e na indústria de produtos veterinários,
ocorreu a instalação dos grandes laboratórios especializados, como o Fontoura
e Serpe, Rangel Pestana, Andromaco Glefina, etc. As farmácias de manipulação
perdiam mercado para os laboratórios, a produção concentrava-se.
O gênero da indústria que apresentou o maior crescimento no número de estabelecimentos
foi o têxtil. Em 1914, a indústria têxtil contava com apenas 42 estabelecimentos,
em 1929, eram 297 estabelecimentos. Até meados de 20, a indústria não sofreu
a concorrência dos produtores europeus e norte-americanos, os quais se refaziam
das dificuldades impostas pela economia de guerra. A partir de 1927, a indústria
têxtil entrou em crise de superprodução - excesso de capacidade produtiva
criado pela retomada das empresas estrangeiras, que reiniciaram as exportações
para o mercado brasileiro.16
Ainda dentro do setor produtor de bens de consumo, a indústria de calçados
apresentou um desempenho expressivo: o número de estabelecimentos, em
1914, que era de 66, passou para 240, em 1929. Ou seja, o número de fábricas
de calçados quase quadruplicou em 15 anos.
Na indústria produtora de alimentos, chama a atenção o crescimento
do número de panificadoras e a diversificação do gênero com a entrada das
fábricas de moagem de trigo. Até a Primeira Guerra Mundial, o Estado de São
Paulo importava farinha de trigo. Nos anos que seguem a guerra, os entraves
para se importar farinha, o produto acabado, levaram a indústria de alimentos
a instalar moinhos de trigo. A importação de farinha cedeu lugar à importação
dos grãos de trigo.
Não foi somente a guerra que levou à diversificação e à expansão da produção
da indústria de alimentos e à de bens de consumo corrente, o crescimento populacional
da cidade de São Paulo explica a existência de um mercado consumidor, sem
o qual a indústria de bens de consumo não poderia ter aquele desempenho.
Esse mesmo mercado consumidor explica o crescimento do número de estabelecimentos
comerciais e de serviços. Dentre o comércio de mercadorias, destacam-se
casas de venda de produtos alimentares responsáveis por prover mantimentos
para a população aglomerada no núcleo urbano.
O comércio de frutas, verduras e legumes apresentou um crescimento significativo,
de 79 estabelecimentos inscritos na Secretaria da Fazenda, em 1914, saltou
para 899, em 1929. A ampliação de locais de venda desses produtos reflete
em parte a intensa mercantilização da agricultura, principalmente daquela
agricultura de alimentos, localizada nas terras circunvizinhas à Capital paulista.
A expansão urbana fez surgir um cinturão verde em torno da cidade,
responsável pelo fornecimento de hortaliças, frutas e flores. Essas culturas
desenvolviam-se em localidades próximas, como Cotia, Mogi das Cruzes, Serra
da Cantareira e Guarulhos.
O crescimento da cidade de São Paulo comportou um setor diversificado de serviços
para atender às novas demandas derivadas dos comportamentos e das atitudes
urbanas. O melhor exemplo para ilustrar a urbanidade dos comportamentos é
o crescimento do número de estabelecimentos prestadores de serviços pessoais,
tais como barbearia, cabeleireiros para homens e cabeleireiros para mulheres.
Em 1914, existiam 19 estabelecimentos desse gênero para homens, em 1929, eles
são 1.196, ou seja, houve um crescimento de 6.100%. Perto desse resultado,
o aumento do número de cabeleireiros para mulheres parece insignificante,
pois cresceu 680%: passou de 5 estabelecimentos para 34.
O gênero do setor de serviços composto por hotéis, pensões, cafés, bares,
botequins, sorveterias, leiterias e restaurantes multiplicou o seu número
de estabelecimentos por quatro. Desse conjunto, as pensões tiveram o número
de estabelecimentos multiplicado por seis.
As alfaiatarias, as sapatarias, os ateliês de costuras e as relojoarias tiveram
um desempenho não menos importante, multiplicaram-se por quatro. Desse grupo,
destacam-se as oficinas de costuras para senhoras que passaram de 21 para
170.
A onda de construções, a diversificação da indústria, a solidariedade entre
os setores do capital e o crescimento dos serviços transformaram a paisagem
da cidade de São Paulo, metamorfoseando-a na metrópole do século XX.
Até a Primeira Guerra Mundial, a cidade do Rio de Janeiro liderava a indústria
nacional. O Rio preenchia todas as condições para o desenvolvimento da indústria:
sede do governo, cidade-porto, maior mercado consumidor e de trabalho. Em
1907, a cidade do Rio concentrava 1/3 da produção industrial do Brasil e sua
população era três vezes maior do que a da capital paulista.17
São Paulo, em meados de 10, superou a liderança industrial do Rio de Janeiro.
E, em 1920, o Estado de São Paulo ocupava o primeiro lugar na produção industrial,
com a responsabilidade de gerar 32% do valor da produção industrial, enquanto
o antigo Distrito Federal, vindo em segundo lugar, era responsável por 21%.18
Tendo iniciado o processo de industrialização depois do Rio, a Capital paulista
beneficiou-se de sua posição geográfica que a transformou em centro de uma
ampla região do país. A rede ferroviária, construída sob a liderança do capital
cafeeiro, reforçou os laços da Capital com o interior do Estado de São Paulo,
com o sul de Minas, com o triângulo mineiro, com o Mato Grosso e Goiás, com
o Paraná, com Santa Catarina e com o Rio Grande do Sul.19
Essa vasta área, à medida que se incorporava à economia de mercado, se transformou
em mercado consumidor de bens industrializados, produzidos pelas indústrias
instaladas na Capital paulista e de bens importados, cujo comércio também
estava estabelecido na cidade de São Paulo, graças a sua ligação direta com
o maior porto, importador e exportador - o da cidade de Santos.
A cidade de São Paulo pôde superar sua defasagem no estabelecimento de indústrias,
graças ao dinamismo desse vasto mercado interno que foi capaz de absorver
cada vez mais produtos industriais. O amplo hinterland de São Paulo
e a diversificação da agricultura paulista, iniciada por volta de 1905-1910,
ofereciam à indústria paulistana o almejado mercado consumidor, sem o qual
seu dinamismo estaria comprometido. Há uma solidariedade entre a economia
urbana da Capital , com suas múltiplas atividades nucleadas pela indústria,
e a economia agrícola-industrial do interior do Estado. Fato semelhante não
se passou com o Rio: seu hinterland agrícola permaneceu na economia
de subsistência, ou talvez, sua incorporação à economia de mercado já tivesse
atingido seu limite máximo. Com isso, o Rio não se beneficiou das vantagens
do pioneirismo da produção mecanizada.

